|Segunda-feira, 18 Fevereiro 2019
Ao final da tarde, Rony se dedica à prática do instrumento que ganhou, simplesmente, o que há da mais valor na casa inacabada

“Vou precisar de muita água com açúcar”, diz haitiano ao sonhar com apresentação em orquestra

Trabalhando e estudando incansavelmente, o maior sonho de Rony, é ir adiante na música

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Tem gente que sonha em ter um emprego. Ou quem sabe um carro. Tem gente que sonha em ter uma casa. A seu modo, o haitiano Rony Guerisma já conquistou tudo isso aí.

Atualmente, o sonho intangível é tocar em uma orquestra profissional. Apenas isso, porque para ele, “a música é tudo”. Hipertenso e já nervoso apenas com a entrevista, ele imagina que se este dia chegar, “vai precisar de muita água com açúcar”.

A primeira vez que vislumbrou essa experiência, foi no dia em que havia acabado de chegar do trabalho – ele é responsável pelas máquinas de envasar refrigerante e cerveja da Ambev no período das 22h às 7h. Enquanto se preparava para descansar, se distraía assistindo TV. Foi quando começou a ver uma matéria sobre o Instituto Ciranda e seu coração se encheu de ânimo.

Tomou banho na mesma hora, trocou de roupa e correu para o ponto de ônibus, como quem estivesse perdendo a grande chance na vida. Ele não sabia nem que linha o levaria até o desconhecido bairro Boa Esperança, mas perguntando aqui e ali, chegou até lá.

“Depois que eu já havia andado um grande pedaço e abordado muitas pessoas, uma mulher me disse que era só eu seguir mais um pouquinho adiante que já ouviria música e foi assim que encontrei a sede do Instituto”, relembra.

“Mas quando cheguei lá me disseram: não temos vaga para adultos [Rony tem 36]. E aí eu só pensava em como tinha sido difícil chegar até lá. E eu me perguntava, Jesus, por quê adulto não tem essa chance?”.

Vendo o desespero em seu rosto, lhe disseram que a Unimed, via projeto social PróUnim, havia acabado de abrir uma turma de alunos, sob supervisão e regência do mesmo maestro, Murilo Alves. Foi assim que começou a se materializar uma oportunidade.

Uma vida de batalhas

Rony, que está concluindo o TCC do curso de Engenharia de Produção, na Unic da Barão, começou uma nova rotina. “Eu não tenho carro, mas tenho duas passagens de ônibus por dia, que uso para ir até a faculdade lá por umas 11h da manhã onde fico até umas 17h e então vou para as aulas de música. Isto, sempre às segundas, terças e quartas-feiras”, conta.

Da Unic à Unimed, ele vai caminhando por cerca de 30 minutos debaixo do solzão de Cuiabá. Para trabalhar, onde cumpre expediente por seis dias e folga dois, ele vai a pé mesmo, pois é bem pertinho de onde mora, no bairro Novo Tempo.

Se levarmos em conta essa rotina, o bravo guerreiro que tem se expressado sua sensibilidade através da música, dorme poucas horas por dia. “Quando se tem um objetivo, é natural sofrer um pouquinho. Não tem vitória sem batalha”.

Como tantos outros conterrâneos, ele chegou a Cuiabá ansiando por uma vida melhor, depois de sofrer os impactos do terremoto de 2010, que agravou ainda mais os problemas sociais no Haiti. Do Acre, pegou um ônibus e desceu em Cuiabá. Foi acolhido pela Casa do Imigrante e aos poucos, entre uma batalha e outra, conseguiu um trabalho e um terreno para morar, comprado com seu próprio esforço.

Com a mão na massa [e no sax]

É ele também quem constrói a casa com a ajuda de um auxiliar.  “Eu estou tão contente que agora tenho uma casa com cinco cômodos, não tem piso, todo dia eu tenho que molhar para refrescar, mas é tudo que eu tenho”, diz, ao mostrar a casa em processo de construção e ainda com poucos móveis e eletrodomésticos.

Rony havia pago dois pedreiros para fazerem o serviço, mas eles ficaram com o dinheiro e sumiram. “Então eu resolvi fazer eu mesmo”, declara com uma aceitação invejável.

Ah, mas Rony havia esquecido e fez questão de ressaltar: “mas agora eu tenho um sax, que eu toco todos os dias de frente à minha casa, porquê é mais fresco né?”. E é assim que a música inunda o bairro que foi ocupado com uma invasão e está prestes a ser regularizado.

O sax, que talvez seja o que tem de mais valoroso, foi presenteado pela direção do PróUnim. O presidente do projeto, André Palma, acompanhava de longe o esforço de Rony e no primeiro recital que fez na vida, tocando em um teclado em novembro do ano passado, foi surpreendido com essa homenagem.

“Ah, eu gosto muito de tocar Luar do Sertão nele”, ao citar uma música do cancioneiro popular brasileiro.

Ao relembrar a vida que tinha no Haiti, mesmo com conquistas notáveis, ele não troca Cuiabá pela cidade natal, Gonaives.

“Acho que eu gostaria muito de voltar lá para passear e trazer minha família. Minha mãe, considera que por eu estar longe, é como se tivesse perdido seu filho. É triste ouvi-la chorando ao telefone”.

Antes do terremoto estremecer suas bases, ele cursava o terceiro semestre de Medicina e dava aulas de literatura francesa, espanhol e inglês.

“Eu até poderia ter tido a oportunidade de dar continuidade à faculdade de Medicina. Mas, como eu iria trabalhar, como eu iria me manter? Tive que tomar essa decisão. Mas eu tenho muita esperança. Acredito muito que nada ocorre por acaso e que é este o meu caminho da felicidade”.

E sim, o coroar dela, seria evoluir a ponto de tocar em uma orquestra profissional. Disso ele não abre mão. Torcida é o que não vai faltar.

Rony, um cara incrível e cheio de fé na vida: “não tem vitória sem batalha” (Foto: Protásio de Morais)

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