|terça, 17 Julho 2018

    Ra-tim-bum: é hora, é hora, é hora

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    Não foi só o sanduíche bauru que foi criado por estudantes da USP. Também esta frase, tão cantada em ocasiões festivas, nasceu nas Arcadas de São Francisco, em São Paulo, famosas por ali terem estudado jovens que se tornaram referências, não apenas no Direito, mas também na Literatura e na Política.

    Ra-tim- bum, às vezes antecedida de “é hora, é hora, é hora”,ou ainda da variação “é pique, é pique, é pique!”, dita também “é big, é big, é big”, surgiu na década de 30 do século XX, em restaurantes e botecos frequentados por estudantes de Direito da USP.

    Doutor em Direito pela Universidade de Roma I: La Sapienza, Eduardo César Silveira Vita Marchi, professor e ex-diretor da Faculda de Direito da USP, conta que antes das modernas geladeiras os estudantes precisavam aguardar que as cervejas fossem resfriadas em barras de gelo, pois não havia como resfriar tantas simultaneamente. Quando os garçons traziam à mesa a nova remessa, pela qual os jovens haviam esperado, era hora de beber e celebrar com vivas a este ou àquele tema, a esta ou à aquela personalidade pública.

    Reza a lenda universitária que por aqueles anos um rajá indiano visitou a Faculdade. Era muito simpático e bonachão e seu nome soava como “rajá timbum”. Rajá designa rei ou príncipe, em sânscrito. Timbum deveria ser o nome pelo qual era conhecido. E com o tempo a sílaba “já” foi sorvida junto com a cerveja bem gelada e a expressão virou ra-tim- bum.

    Já a variante “é pique, é pique, é pique” era homenagem a um estudante chamado Ubirajara Martins. Ele usava uma tesourinha para aparar a barba e o bigode pontiagudo que o caracterizavam. O ruído do objeto soava como “pic, pic, pic”. Estes refrões, cantados preferencialmente no Restaurante Ponto Chic, referência da culinária paulistana por muitas décadas, ganharam o gosto do público porque os estudantes eram convidados para animar festas de aniversários, ocasião para divulgarem suas canções habituais.

    Em 1938, a expressão, já alterada, como ocorre em criações coletivas, foi parar na marchinha Touradas em Madrí, de Alberto Ribeiro e João de Barros: “Eu fui às touradas de Madrí/ Parará-tim- bum, bum/ E quase não volto mais aqui.”

    A seguir, colocam Catalunha na história só para rimar com unha, e “amoles” e “Caracoles”, eufemismo para palavra de baixo calão, cujo fim era apenas fazer a rima apropriada: “Eu conheci uma espanhola/ Natural da Catalunha/ Queria que eu tocasse castanhola/ E pegasse touro à unha/ Caramba! Caracacoles!/ Sou do samba/ Não me amoles/ Pro Brasil eu vou fugir”.

    E assim os bordões ganharam a vida nacional. Nascidos na elite intelectual do país, desceram aos estádios para obter a consagração popular, que esta independe de diplomas e títulos. (xx)

    Ps. Este texto deve muito a um artigo de Fabrício Marques, publicado na Revista da Fapesp, edição 102, agosto de 2004, e à revista Superinteressante, setembro de 2015.

    Assinatura Deonísio

     

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