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O hábito e o monge

Foto de Cassyra Vuolo
Cassyra Vuolo

Caminhar devagar pela praia nos faz bem ao corpo e a alma. Uma oportunidade que direciona os olhos para as coisas pequenas e outras enormes, aprimora os ouvidos para a canção do mar. Brinda a pele com os respingos da água salgada e o cheiro inconfundível da brisa que vem de longe acariciar os cabelos e levar grãos de areia para o concreto que separa a vida da terra, da vida do mar.

Numa dessas manhãs, sentei-me no calçadão para beber água de coco na barraca do senhor Renato. Um senhor cujos cabelos grisalhos compunham seu porte atlético, bronzeado, de fala mansa e gentil.

Todo vestido de branco, confortavelmente calçado e com uma bandana na cabeça vendia sua água de coco.

[featured_paragraph]Havia nele uma educação refinada que transparecia nos seus gestos e no trato das pessoas. Entregava a água de coco como se estivesse levando uma jóia ao joalheiro. E para ele, de certa maneira, o era.[/featured_paragraph]

Gastava tempo com os clientes, demonstrava interesse para saber se a água estava no ponto desejado. Com alguns frequentadores antigos, sentava e conversava amenidades.

Não demorou muito para chegarem seus ajudantes que também entraram no processo da mesma forma. Estes o Renato coordenava de longe com gestos, olhares e frases que começavam assim: por gentileza, por favor e terminava com obrigado, grato e por aí a fora.

Estando mesmo sem compromisso e a água espetacularmente boa, continuei ali como observadora por mais tempo.

Já passava das nove quando a cidade acordou e outra clientela veio dos escritórios próximos, uma turma mais acelerada, de fala mais rápida, que não sentava, bebia em pé ou ia embora com copos de água nas mãos.

Nesta etapa, outras palavras vieram dar suporte ao alvoroço que momentaneamente se tornara o espaço: “me perdoe pela demora”, “desculpe senhor”, “na próxima vez estaremos mais atentos”, “vamos trocar por outra mais gelada”.

Acostumada a escritórios mais formais fiquei analisando o clima daquele lugar, a forma de liderança, a preocupação com a qualidade e o tempo de entrega do produto, a satisfação dos clientes e o bom atendimento.

Se não estivesse com os pés na areia diria que “seo” Renato tinha feito os programas da qualidade total. Até busquei encontrar algum indício de profissionalização técnica na barraca e nada.

Não resisti e fui conversar com ele e perguntei sobre onde e como tinha se tornado uma pessoa assim e como tinha aprendido a lidar com clientes tão diversos, ao mesmo tempo, com tamanha desenvoltura, educação e generosidade.

Ele, com o sorriso de quem frequentou a universidade da vida, respondeu olhando em direção ao mar: “É a soma da educação que recebi, da necessidade de sustentar a família e a vontade de fazer o melhor para mim e para os outros. Sou uma imensa gratidão ambulante por tudo que faço e por isto aqui.”

[featured_paragraph]E levantou-se para segurar a tolha que corria rápida em direção a areia da praia.Paguei e segui a caminhada pela calçada já com os carros, as pessoas e as bicicletas girando a toda.[/featured_paragraph]

Sinceramente, me deu uma vontade de levar “seo” Renato para dar uns cursos por aí. Tantos espaços que jamais aceitariam este homem falando para seu público. Precisamos de tantos códigos, símbolos e linguagens nos espaços que vivemos.

E todo este esforço ainda não consegue nos colocar no mesmo patamar quando estamos falando de liberdade, educação e oportunidades. Nestes pontos as diferenças se afloram e as pessoas ao invés de valores passam a ter classes e posições. E nos habituamos com isso.

Nestes dias o hábito tem feito o monge, mas não deveria. E enquanto muitos julgam eu fico com Thiago de Mello, que em 1964 lindamente declarou em seu poema “Estatuto do Homem” no artigo X: ”Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, o uso do traje branco. E emendo e de chinelos e de bandanas pois a liberdade”, diz Thiago, “será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.”

Habitue-se a ser livre!

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