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Malala, os livros e as armas – parte I

Foto de Bene Barbosa
Bene Barbosa

Na última semana, o Brasil recebeu a visita da ativista paquistanesa Malala Yousafzai que, aos dezesseis anos, sofreu uma tentativa de assassinato por islâmicos do Talibã. Uma história realmente terrível, mas que está longe de ser uma exceção e muito próxima de ser aqueles casos onde o remédio sugerido é muito pior que a doença.

De acordo com estudo de 2013, realizado pelo representante das Santa Sé na ONU, mais de cem mil cristãos são mortos todos os anos por questões religiosas. Ao que parece, esse número não causa qualquer comoção naquela entidade que adotou Malala como garota propaganda. Não vou aqui discorrer muito profundamente sobre a atuação dessa moça e como sua narrativa causa frisson na esquerda e na grande imprensa.

Para Malala todos os problemas do mundo podem ser resolvidos com a educação, com livros e com – é claro! – a ausência de armas. Estranhamente, a menina chegou a um restaurante vegano no Rio de Janeiro com nada menos que dezesseis seguranças armados. É óbvio que alguém na posição dela, jurada de morte por muçulmanos do Talibã, deve mesmo andar com toda segurança possível, mas o que causa dúvidas é o quanto um discurso pacifista pode se distanciar da dura realidade, na qual pessoas armadas são realmente a última barreira que pode garantir sua vida.

O terrorista e parte da sua vasta biblioteca

Assim me parece bastante simples – óbvio mesmo – que o problema em si não é a existência das armas, como afirma a própria Malala, mas, sim, nas mãos de quem elas estão. Também não é necessariamente a educação e a presença de livros que podem inexoravelmente transformar o mundo em algo melhor. Vejamos o caso de Bin Laden, milionário, estudos rigorosos, todos os livros do mundo à sua disposição e, cá entre nós, ele passou muito longe de tornar esse nosso planetinha um lugar melhor.

Nessa linha do lugar-comum, não há como deixa-lo fora do artigo: Adolf Hitler! Teve pleno acesso à educação, sonhava em frequentar uma escola clássica e se tornar um artista. De todos os livros que o influenciaram, O Judeu Internacional, escrito por Henry Ford, em 1920, foi impactante e, para alguns historiadores, essencial para desenvolver o fervor antissemita do ditador. Mais uma vez, estudos e livros não fizeram alguém melhor para o mundo e, neste caso precisamente, seria melhor se tal livro nunca tivesse sido escrito.

Mesmo obras consagradas de escritores vencedores do Nobel de Literatura não estão livres de influenciar malignamente mentes perversas e autoritárias. Este foi o triste fim de um dos meus escritores favoritos: Ernest Hemingway. O fundador da mais longa ditadura latino-americana, Fidel Castro, também era um ávido e dedicado leitor. Entre as obras reconhecidamente por ele próprio como mais inspiradoras se encontra o excepcional Por quem os sinos dobram que, de acordo com o próprio ditador, “ensinou muito sobre tática de guerrilha”.

O Manifesto Comunista.

A lista de livros e seus dedicados estudantes que transformaram o mundo em um lugar muito pior é longa. Vai de O Príncipe ao Mein Kampf, passando pelo O capital e O Manifesto Comunista, provavelmente os dois campeões em influenciar genocidas e ditadores. É necessário, no entanto, fazer uma ressalva importante, sou absolutamente contra a censura dessas obras. Conheço muitas pessoas que leram esses títulos, incluindo esse humilde autor que vos escreve, e que, como eu, tais leituras só serviram para aumentar ainda mais a ojeriza, o asco e a intolerância com os verdadeiros intolerantes que resolveram se declarar reconstrutores da sociedade com suas ideologias sanguinárias e liberticidas.

Os discursos de Malala são, ao final das contas, rasos e politicamente corretos, de fácil digestão aos que acham que “educação resolve tudo” ou que acreditam “que há armas demais e livros de menos no mundo”, mas que espertamente são muito bem usados por aqueles que estão muito pouco preocupados com a cultura, com a educação e com valores morais ocidentais. No fundo, usam a educação como sinônimo de pura doutrinação. Até mesmo muitos conservadores e liberais caíram nessa conversa e saíram em defesa da jovem.

Meio que sem querer encontrei um vídeo bastante interessante onde membros da esquerda americana entrevistam uma muçulmana do Conselho Socialista de Seattle que festeja o prêmio recebido por Malala. No vídeo, entre outras coisas, comemoram uma afirmação dela: “Estou convencida de que o socialismo é a única resposta e peço a todos os companheiros que levem essa luta à vitória. Somente isso nos libertará das cadeias de fanatismo e exploração”. Com isso a jovem mostra exatamente o que os mais atentos perceberam faz tempo: ela é claramente marxista.

Bom, acabei não falando sobre a questão das armas e o necessário paralelo aos livros, mas para não tornar esse artigo excessivamente longo e talvez cansativo, fica para semana que vem, ok? Até lá!

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