|domingo, 24 Junho 2018

    Jornalista relembra perseguição após denúncia sobre propina no VLT

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    Iwi Onodera

    Vinicius Segalla

    O jornalista Vinicius Segalla: série de reportagens apontou trama de corrupção nas obras do VLT em 2012

    Em meados de 2011, uma enigmática mensagem de e-mail, assinada por alguém que se identificava apenas como João, chegou à caixa postal do jornalista Vinícius Segalla, então repórter do portal UOL.

    Poucos dias antes, Segalla havia publicado reportagem sobre as inúmeras dúvidas levantadas pela repentina adoção do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) como modal de transportes para a Copa do Mundo em Cuiabá.

    A decisão, anunciada pelo governo de Mato Grosso, havia sepultado o projeto do BRT (Bus Rapid Transit) -que tinha financiamento, estudos técnicos concluídos e custaria um terço do valor.

    O texto fazia menção direta ao então deputado José Riva, descrito como um “político que responde a mais de 50 processos por improbidade administrativa” e apontado como o principal articulador da mudança.

    “[Riva] fez a cidade abrir mão de um financiamento da Caixa Econômica Federal de R$ 451 milhões para a construção de três corredores de ônibus (ou BRT, Bus Rapid Transit), esta sim a solução de mobilidade urbana apontada por técnicos como a ideal para as necessidades e proporções de Cuiabá”, dizia o texto.

    Na mensagem eletrônica endereçada ao jornalista, “João” dizia ter informações de bastidores sobre possíveis irregularidades relacionadas ao caso e pedia um encontro em um local público.

    “Marcamos em um café de um shopping de São Paulo. Mesmo pessoalmente, ele insistia em ser chamado apenas de João”, lembra.

    A escolha do VLT havia sido fruto de um conluio de políticos, lobistas, empreiteiras e empresas do setor metroviário

    Aquele seria o primeiro de vários encontros. A fonte relatou a Segalla que a escolha do VLT havia sido fruto de um conluio de políticos, lobistas, empreiteiras e empresas do setor metroviário. E que o resultado da licitação havia sido decidido mediante propina de R$ 80 milhões.

    Sem que o interlocutor soubesse, Segalla pediu que o fotógrafo do portal registrasse um dos encontros. A foto foi remetida à então blogueira Adriana Vandoni, que colaborava com Segalla na apuração do caso em Cuiabá.

    Ela repassou a imagem para algumas fontes e logo descobriu que João era Rowles Magalhães Pereira da Silva, um lobista que ocupava cargo comissionado como assessor no gabinete do então vice-governador, Chico Daltro.

    Descobriram ainda que, antes e após sua nomeação ao cargo, Rowles atuava em favor da Ferconsult, uma companhia estatal portuguesa que se articulava para firmar uma PPP (Parceria Público Privada) com o governo de Mato Grosso.

    Contrariado com os rumos do processo, o lobista decidira procurar a imprensa para denunciar a suposta fraude. Segalla percebeu que era o momento de revelar a identidade do servidor público e o seu impressionante relato.

    “A partir daquele momento, fui bem claro com ele: estava rompida a relação entre jornalista e fonte”, lembra Segalla.

    A reportagem foi publicada no dia 17 de agosto de 2012 e causou repercussão internacional ao revelar que o resultado da licitação, realizada em 15 de maio, já era conhecido pelo menos um mês antes do certame.

    Além de constar dos relatos de Rowles, a vitória do grupo (formado pelas empresas Santa Bárbara, CR Almeida, CAF Brasil Indústria e Comércio, Magna Engenharia Ltda e Astep Engenharia Ltda) havia sido antecipada por uma publicação cifrada nos classificados do jornal Diário de Cuiabá do dia 18 de abril daquele ano.

    Reprodução/UOL

    Uol

    “Desde o início, dava para sentir que se tratava de algo duvidoso, até pela maneira como se deu a troca do BRT pelo VLT e pelas pessoas envolvidas, como o José Riva”, diz Segalla.

    A publicação gerou, por parte do governo, uma reação rápida, mas contra quem havia denunciado a irregularidade. “Fui chamado a depor em um inquérito da Polícia Civil que procurava descobrir como aquela informação havia chegado às minhas mãos. Ou seja, em vez de apurar a denúncia, queriam investigar quem denunciou”, relata.

    Ouvido no mesmo inquérito, Rowles Magalhães contestou a reportagem e se declarou “vítima de extorsão por parte do jornalista”. A versão foi endossada pela cúpula da gestão Silval, que passou a denunciar um suposto “complô” para tirar Cuiabá da lista de sedes da Copa.

    “Claro que é algo que te deixa chateado, mas não me abalou porque tive muito apoio da empresa em que trabalhava e sabia que havia agido corretamente em todas as etapas daquela investigação”, diz.

    Logo após a deflagração da Operação Descarrilho pela Polícia Federal, e da divulgação do depoimento de Silval Barbosa confirmando que houve pagamento de propina relacionada à obra, Segalla postou nas redes sociais um desabafo.

    “Quer dizer, Adriana Vandoni Curvo, que quando publicamos, HÁ CINCO ANOS, que existia propina na obra do VLT, disseram que a gente estava perseguindo aquele governo, trabalhando contra Cuiabá e contra Mato Grosso? Quer dizer que este secretário que foi conduzido hoje às 6h da manhã por policiais é aquele mesmo que antes disse nada saber sobre propinas ligadas ao VLT, e que estávamos eu e você simplesmente mentindo?”, questionou.

     

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