|Terça-feira, 26 Março 2019

Casados e apaixonados: após a valsa que emocionou o Brasil, noivos contam história de amor

Você viu este vídeo? Paraplégico, Hugo foi amparado para dançar valsa com a noiva

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No último sábado (5) as imagens deste casal emocionaram a internet, mostrando que não há limites para uma declaração de amor. Amparado por familiares, o noivo se superou para vivenciar um momento singular: mesmo com as pernas sem mobilidade, ele se “levantou” para dançar com a noiva.

Nesta semana, eles receberam a reportagem do LIVRE para contar como essa história começou. Cinthia Zanuni e Hugo Rohling são daqueles casais que você poderia ouvir por horas, em razão das numerosas situações desafiadoras que tiveram que vencer, e também por causa das várias histórias hilárias do cotidiano do casal. Há limitações para Hugo, mas há o amor inabalável de Cinthia.

Hugo, 38 anos, trabalhou por 10 anos como vendedor de carros. Sempre chamou a atenção pelo carinho com que tratou os clientes e mesmo que uma fatalidade tenha mudando boa parte de seus planos, ele não perdeu a alegria de viver. Enquanto ele batalhava, Cinthia seguia ministrando cursos de maquiagem e o preparo de noivas pelo Brasil afora, sonhando com o dia em que também acharia seu príncipe para espera-la no altar.

Mesmo vivendo realidades diferentes, ambos compartilhavam da mesma vontade: de um dia encontrar a cara metade. Duas trajetórias distintas, mas que o destino logo se encarregou de tornar uma só.

Tudo começou com um aplicativo para conhecer pessoas que serviu de cupido moderno. Cinthia, ainda desconfiada, foi convencida por uma amiga de que era uma boa ideia. Afinal, a própria amiga havia conhecido o marido através do mesmo aplicativo.

E assim Hugo e Cinthia começaram a se conectar. Mas ela, sem muita paciência, logo desinstalou o aplicativo – o que não impediu que os dois se “achassem” no Instagram e dessem continuidade à amizade colorida que nascia. Rapidamente passaram a se falar por WhatsApp. Foram necessários apenas 20 dias para Cinthia perceber o que fazia de Hugo, um homem especial e diferente de todos.

“Em um dia qualquer o Hugo entrou no meu perfil do Instagram e curtiu várias fotos minhas em sequência. Eu para retribuir a gentileza, resolvi curtir algumas fotos dele também. Não havia stalkeado a conta dele no Instagram antes, porque nossas conversas no WhatsApp eram sempre muitas boas e aquilo, naquele momento, parecia suficiente, além de ser tudo muito recente. Mas no momento em que fui passando ao álbum do perfil, me deparei com um vídeo em que Hugo segurava o sobrinho no colo, sentado numa cadeira de rodas. Fiquei gelada na hora, mas não por ele ser um cadeirante, e sim pela minha vergonha. Será que eu tinha dado algum fora? Fui grosseira? Preconceituosa? Às vezes fazemos comentários sem nem imaginar que possam ferir o outro” contou .

Sempre direta, Cinthia não hesitou: “Hugo, você é cadeirante?

Pergunta que bastou para jogar um balde de água fria em Hugo, que mesmo prevendo a reação de Cinthia, preocupou-se em deixá-la à vontade. “Sim, sou cadeirante, mas se não quiser mais falar comigo, eu vou entender sem problemas”, respondeu.

Pode parecer loucura, mas de nada adiantou desinstalar o aplicativo, pois o amor entre os dois já estava mais do que instaurado. Cinthia então respondeu: “Estou curiosa. Quero te conhecer, saber mais de você. Quem sabe eu não te ache interessante?”. Foi a frase estopim para marcarem o primeiro encontro.

“Lembro que me ofereci para ir buscar o Hugo e ele disse que ele é que iria me buscar. Eu estava tão nervosa, porque já estava afim dele e queria que tudo saísse certinho. Para isso eu não podia dar nenhum fora.  Me lembro que quando eu entrei no carro estava tão tensa que a primeira coisa que eu fiz foi olhar se ele tinha as pernas. Só que eu já tinha visto antes nas fotos. Fiquei desconcertada, mas foi engraçado”, contou Cinthia enquanto os dois riam relembrando a cena.

E o Hugo percebendo o nervosismo da moça, perguntou onde ela preferia ir. A resposta de Cinthia foi calculada.

“Eu já saí de casa pronta para dizer a ele que eu queria tomar um sorvete no drive thru. Assim ele não teria que descer do carro. Não queria dar trabalho, e não fazia a mínima ideia de como agir. O primeiro encontro foi embaraçoso. Então marcamos um cinema para o dia seguinte e fiquei mais tensa ainda.
Então eu disse que iria precisar da ajuda dele, porque não sabia como agir. Se eu empurrava a cadeira, se pegava ele no colo. Tinha o medo de constrangê-lo, mas ao mesmo tempo não queria deixar ele sozinho se matando. E o Hugo, sempre me surpreendendo, disse: ‘Cinthia, olha minha situação. Acha mesmo que eu teria vergonha de pedir ajuda a alguém? Fique tranquila que, se eu precisar, não vou acanhar em pedir sua ajuda’”.

 

O gesto de Hugo deixou Cinthia tão tranquila que, após o cinema, ela desceu a escada rolante, esquecendo a limitação do parceiro. “Eu não sabia onde enfiar minha cara de tanta vergonha. Fui me dar conta quando já estava na metade da escada rolante. Olhei para trás e ele estava me olhando e feliz, por ter encontrado alguém que o via como alguém normal, sem sentimento de piedade”. E foi assim que, em agosto de 2017, começaram a namorar.

A reação de amigos e família

Namoro formalizado, Cinthia precisava então ligar para a família no Paraná e contar a novidade. Talita, a irmã foi a primeira a saber. “Ela ficou muda por um instante e logo soltou um ‘é a sua cara!’. Não poderia ser diferente vindo de você, e tenho certeza que nossa mãe vai ficar feliz com a notícia também”. E ficou. Quando Cinthia disse que tinha uma novidade, sua mãe não se controlava do outro lado da linha: ‘eu vou ser avó? Você está grávida filha? Meu Deus que alegria'”, relembra.

“Ela não me deixava terminar de contar. Precisei esperar a euforia dela passar para contar que não estava grávida, mas sim que estava namorando e ele era um cadeirante. Depois que se acalmou, consegui dar a notícia e a resposta dela foi: ‘entendi. Mas e então, qual era a novidade que queria me contar?’ Foi engraçado, mas ao mesmo tempo um alívio. Todos estavam felizes por mim e a condição do Hugo era o que menos importava”.

Infelizmente, ela não teve o mesmo apoio das amigas.

“Cheguei a ouvir que o que eu sentia era pena, e que por ser uma pessoa boa, estava fazendo aquilo por caridade e iria ser infeliz e me arrepender. Nesta nossa trajetória, muitos se afastaram. Pude ver quem realmente queria me ver feliz”, desabafa.

Unidos até no trabalho

Cinthia se queixava do alto custo que tinha com assessoria em cada Estado onde ministrava as palestras – algumas delas fora do país. Já Hugo, descontente com a profissão após o acidente, se via limitado para algumas tarefas.

“Sou muito dinâmico, e vi que meu rendimento ali já não era como antes . Acompanhar o comprador durante test drive por exemplo era algo delicado. O cliente se recusava, pois não queria me causar incômodo. Mas era o meu trabalho e eu ficava cada vez mais frustrado”.

Foi quando Cinthia, em meio a um evento em que ficou sem assessoria, precisou pedir ajuda ao namorado. A parceria deu tão certo que hoje o casal viaja pelo país, com workshop para mais de 300 pessoas.

“Ele já cativou as alunas que nos acompanham nas redes sociais. Elas chegam perguntando: ‘cadê o Hugo?’ Ele tem essa facilidade para lidar com pessoas. Não tinha como ser diferente. Viajo muito e íamos acabar nos afastando”.

Casamento

Oito meses de namoro se passaram e Cinthia foi surpreendida com o pedido, durante o casamento da irmã, Talita. E no dia 5 de janeiro de 2019 trocaram as alianças em uma cerimônia que fez com que os convidados não economizassem lencinhos.

Casamentos por si só já causam comoção. Mas esse era especial. Trocas de olhares, juras de amor eterno e os votos matrimoniais, apenas constatavam o amor de um casal que superou não só barreira física, mas principalmente, a do preconceito.

Hugo tinha um desejo: estar de pé no casamento. E assim aconteceu. Com as pernas presas por um velcro, junto ao pai e irmão e com a ajuda dos padrinhos, Hugo se levantou e dançou a valsa junto à amada.

Manifestações de apoio

A cena viralizou na internet. Depoimentos de pessoas tocadas pelos vídeos não paravam de chegar.

Cinthia mostrou à reportagem algumas das centenas de mensagens que recebeu pelo Instagram. Como a de uma seguidora apaixonada por um cadeirante e que, após ver os vídeos, estava encorajada a se declarar.

Também de uma outra leitora que mora em Paris e confessou que, antes das imagens, era avessa ao casamento.

“Sempre achei casamentos desnecessários e cafonas. Sou uma pessoa que dificilmente me emociono, mas as imagens do seu casamento me fizeram chorar e inclusive sentir vontade de casar também”, confessou a seguidora.

Predestinados

“Desde o primeiro dia que saímos juntos eu já sabia que ele seria o homem da minha vida. Depois daquele dia em saímos para tomar sorvete, eu cheguei em casa e fui escrever meus votos e olhar na internet casamentos de cadeirante, tamanha era minha certeza”.

“Nosso relacionamento é de muita paz e respeito. Eu não quero que ele se magoe, e mesmo com as dores constantes ele não reclama de absolutamente nada. Já cheguei a questionar, com tanta gente ruim no mundo, por que com ele? E a resposta que ele devolve mostra o quanto ele é grande: ‘outra pessoa também teria família e sonhos assim como eu. Não sou mais especial, nem melhor que ninguém’.  Ele é demais. E ele cuida de mim assim como cuido dele. Ele é meu maior fã”, diz entusiasmada.

Ativismo

Hugo esta paralítico desde 2014, e seu quadro é irreversível. Remédios tão fortes quanto a morfina, aliviam as dores diárias que sente. Mas sua batalha maior não é contra a cadeira de rodas, mas sim, contra a falta de acessibilidade, em hotéis, restaurantes, lojas de roupas, pontos turísticos, calcadas. Hugo luta pelos seus direitos e por milhares de cadeirantes.

“O exercício de paciência é diário. Ver pessoas parando nas vagas de deficientes e descendo no carro andando sem muletas ou qualquer outra deficiência é revoltante. Encontrar um hotel então é um sofrimento. Em Cuiabá mesmo, com tantos hotéis de luxo, o único que estava dentro dos padrões e me acomodou com todo conforto foi o Delmond. Em uma viagem que eu e a Cinthia fizemos a Natal – RN, tivemos que entrar em 36 hotéis e nenhum era capaz de me hospedar. O que todos precisam entender é que somos eleitores, consumidores, e temos voz ativa. Fazemos parte da sociedade e não podemos ser esquecidos”.

O casal pretende ter três filhos, um sonho ainda distante, já que terão que recorrer à inseminação artificial e o custo é elevado.

“Não sera fácil, mas iremos realizar mais esse sonho. O que posso dizer é que hoje sou uma mulher realizada, por estar casada com um homem maravilhoso. A mensagem que eu quero deixar as pessoas que viram os vídeos do nosso casamento e se emocionaram, é de que todo mundo inclusive quem é portador de alguma necessita especial pode sim ter uma vida normal casar e ser feliz”.

Ela se orgulha do marido.

“Meu marido não é um coitadinho. ele não se vitimiza, é uma pessoa feliz, correta, homem honesto e um gato! e pode despertar interesse em qualquer mulher sim, assim como aconteceu comigo. Não é um favor que eu faço me casando com ele, é ele quem me faz um favor todos os dias me fazendo feliz e amada, dando lições de como ser uma pessoa melhor. Não sou eu quem cuido dele, é ele quem cuida de mim. Me lembro até do filme que ele pediu que visse, o Como Eu Era Antes de Você, que conta a história de um rapaz paraplégico e sua ajudante, onde os dois se apaixonam”.

No caso de Hugo e Cinthia a vida não imitou a arte [sem spoiler]. Amor ao infinito e além!

COMENTÁRIOS

  1. Um exemplo abençoado.Que todos possamos entender que a cada dia em nossa vida é uma batalha. Tive dois AVCs seguidos. Voltei a trabalhar, estou falando, pensando, estudando. Mas o lado direito do meu corpo ficou prejudicado, tenho dificuldades para escrever e an dar. Mas sei que ainda posso produzir no meu trabalho, fazer o bem ao próximo apesar das dores que sinto. Agradeço a Deus todos os dias pela minha existência, pelos livramentos e por estar cuidando de mim e da minha família.

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