|Quarta-feira, 18 Julho 2018
Foto: Camilla Zeni

20 anos da chacina do Candeeiro: “É preciso lembrar para não repetir”

Movimentos contra a violência organizaram ato cultural em local histórico contra impunidade

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Foi entre lágrimas e soluços que, na praça Senhor dos Passos, no centro histórico de Cuiabá, a dona de casa Maria dos Santos Silva participou de um ato em memória aos 20 anos do caso que ficou conhecido como a “Chacina do Beco do Candeeiro”. Ao seu lado, numa expressão mais fechada – porém igualmente dolorida – Albina Rodrigues de Arruda também se preparava para o início da programação.

Em comum há o fato de que ambas são mães de dois dos três adolescentes que foram assassinados no local, há 20 anos. Para elas, apesar de a data (10 de julho) ter se tornado símbolo de impunidade, não há dia que passe sem que elas se lembrem dos filhos – meninos, crianças – que nunca mais voltaram para casa. Os assassinos jamais foram punidos.

Na ocasião, um padre e um pastor, em momento ecumênico, deixaram palavras de fé, precedidas por uma oração. “Nós precisamos pensar soluções para as situações que continuam acontecendo ainda no dia de hoje. Esse ato é importante porque nós precisamos nos dar as mãos, porque a gente sabe que sozinhos não conseguimos fazer frente à violência”, disse o padre Aloir Pacini, da igreja Senhor dos Passos.

O pastor Teobaldo Witter, por sua vez, lembrou do dia do crime. “Era um dia frio, como esse aqui, e nós fomos comunicados ainda de manhã do assassinato de três crianças aqui no Beco do Candeeiro”, rememorou.

Nas palavras dos líderes, as mães e famílias daqueles que tiveram seus parentes vítimas da violência encontraram afago. O pastor comparou a dor à trajetória de Jesus Cristo e observou que “a fé não é de gente que venceu”. Disse ainda que “para curar, é preciso dizer onde dói” – e como dói.

A memória da dor causada pela tragédia era repassada pelas mães aos outros presentes por meio das lágrimas que corriam timidamente durante a cerimônia, cujo ato inicial terminou com uma homenagem: flores foram depositadas na escultura memorial da chacina.

Mães das vítimas se emocionam (Foto: Camilla Zeni/O Livre)

É preciso falar

“Memória” e “lembranças” foram as palavras de ordem no ato deste 10 de julho de 2018. Da boca dos presentes, também se ouvia críticas à impunidade. Impunidade porque um dos acusados de cometer o crime – que chegou a ser reconhecido por uma quarta vítima que escapou do assassinato – era um policial militar e chegou a ser levado para a Justiça, mas, quatro anos atrás, foi absolvido.

Responsável pela escultura no local, o escultor Jonas Corrêa fez questão de participar do ato, mesmo morando no Paraná. Chegou quando o ato já havia começado, mas não deixou de compartilhar suas memórias, tristeza e indignação, tanto pela falta de solução quanto pelo silêncio que parece ter tomado conta do que restou da dor dos envolvidos.

Em razão do trabalho, Jonas sempre teve contato com muitos moradores em situação de rua que se aproximavam e, muitas vezes, o ajudavam com as esculturas. Para ele, o mais chocante do caso foi a reação positiva de parte da população à época.

“Na região, a gente via aplausos, pessoas boas comemorando, dizendo que agora sim vão começar a resolver o problema”, disse.

Foi diante da indignação que, por idealização pessoal, decidiu fazer a escultura, que hoje marca o local da tragédia. “Há quem chame de monumento, mas é um memorial, porque, com o memorial, você não pode mudar de ideia. Mesmo que você queira, aquele fato não pode, nunca, ser esquecido. A discussão está sempre viva. Aconteça o que acontecer, vai estar sempre ali. Hoje ou 20 anos depois”.

“Não podemos nos esquecer que nós vimos isso. Crianças assassinadas injustamente aqui, no centro da cidade. Precisa ser lembrado que nós somos capazes de fazer isso: no momento que a gente está, parece que a gente fica querendo se livrar das pessoas como se fossem latas velhas. É preciso lembrar que a gente é capaz de matar e que precisamos fazer outras coisas boas com a vida”.

O escritor Johnny Marcus, presente no ato, apresentou um poema contextualizando o 10 de julho de 1998 com os acontecimentos de 2018. Para ele, a história da morte dos três adolescentes nunca foi bem contada.

Foto: Camilla Zeni

“A história desses meninos aqui é uma ferida aberta no coração da cidade. As mães até hoje buscam, clamam por justiça. É preciso devolver para esses meninos a humanidade. Eles têm nome, têm família. E é preciso, especialmente, dar um pouco de paz, de sossego, tanto para as vítimas quanto para as famílias deles”, observou o escritor, que pretende contar o que levou os meninos ao Beco do Candeeiro. “Qual foi o contexto? Quais os fatores, circunstâncias? O que faltou a esses meninos?”, questionou.

Há 20 anos

Edgar Rodrigues de Arruda, Adileu Santos e Reinaldo Dias Magalhães tinham 12, 13 e 16 anos quando, no dia 10 de julho de 1998, foram assassinados.

O crime teria ocorrido após diversas manifestações de comerciantes locais, que estariam cansados dos furtos cometidos por meninos em condições de rua. O caso, porém, fugiu do esperado. Segundo relatou escultor Jonas Corrêa, o pedido era que a polícia “desse conta” dos adolescentes – ou seja, tirá-los daquela região a fim de que não voltassem a cometer furtos. Depois daquele dia, relata, os furtos pararam.

O Ministério Público Estadual (MPE), responsável pela denúncia, foi questionado pela família das vítimas. Perguntas frequentes no ato eram: Por que ninguém foi preso? Por que o MPE não age? Para o escritor Johnny Marcus, ainda é preciso dar respostas para que as famílias tenham um sossego definitivo.

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