10 de agosto de 2017 - 06:30

Divisão de Mato Grosso contribuiu para esquecimento de heróis cuiabanos

Militares e voluntários, sepultados no Cemitério do Cai-Cai, viveram uma das batalhas mais épicas do conflito

Juliana Arini

, Especial para o LIVRE

Biblioteca Nacional

Guerra do Paraguai

Imagem da Guerra do Paraguai

As lembranças da Retomada de Corumbá foram esquecidas a partir de 1978. Até então, a história da batalha era reencenada todos os anos, e a data era considerada feriado municipal. Depois da divisão do Estado, em 1977, um decreto fez com que o dia 13 de junho deixasse de ser comemorado na cidade. 

Assim, os feitos da Guerra do Paraguai acabaram restritos a Mato Grosso do Sul, apesar de parte dos soldados e membros do exército que participaram das batalhas terem saído de Cuiabá, que na época era capital da província.

Segundo os relatos históricos, os soldados sepultados no Cemitério do Cai-Cai viveram uma das batalhas mais épicas da Guerra do Paraguai. Foi naquele confronto que homens embarcados em canoas conseguiram quebrar o cerco paraguaio e livrar a cidade de Corumbá de dois anos de invasão.

O tenente-coronel Antônio Maria Coelho virou herói de guerra e tornou-se o primeiro governador de Mato Grosso após a proclamação da República por conta do reconhecimento adquirido com esta batalha. Antes disso, ele recebeu do Imperador D. Pedro II, o título de Barão de Amabaí.

Reprodução

Pintura Partida para Corumbá na Guerra do Paraguai

Pintura retrata a partida de militares e civis cuiabanos para retomar Corumbá

 

O livro “A Medicina na Guerra do Paraguai", de Luiz de Castro e Souza, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, retrata a batalha. Leia um trecho abaixo:

"Assalto e retomada de Corumbá

O presidente Dr. J. V. Couto de Magalhães, que havia assumido o governo da província de Mato Grosso, em 2 de fevereiro de 1867, organiza um batalhão provisório de infantaria, apronta o 19, 59 e 6. da Guarda Nacional e forma uma esquadrilha de pequenos vapores.

Ao receber a comunicação do Cel. Carlos de Moraes Camisão de haver invadido o território inimigo, pelo Apa, o presidente da província, põe, imediatamente, em execução, o seu plano de ação contra Corumbá, ocupada pelas fôrças paraguaias, fazendo partir, no dia 15 de maio de 1867, o batalhão provisório sob o comando do Tenente-Coronel Antônio Maria Coelho ….(…)

(…)Não podendo atacar o inimigo pelo rio, diante da superioridade dos vapores paraguaios, ficou deliberado surpreendê-los por terra assim, desceu o Tenente-Coronel Antônio Maria Coelho pelo pantanal até o Rabicho, a jusante de Corumbá, onde conseguiu desembarcar seus mil homens, na madrugada do dia 13 de junho, sem serem pressentidos pelos paraguaios.

"O ataque às trincheiras inimigas foi tão vigoroso que a fôrça do Tenente-Coronel Antônio Maria Coelho dominava a praça depois de uma resistência de uma hora"

Contornaram a posição fortificada conseguiram levar o ataque por Sudoeste, surpreendendo o inimigo que supunha vir a ofensiva pelo Norte.

No mesmo instante, o valente Capitão João de Oliveira Melo penetra na à frente de seus 200 comandados, e dirigindo-se ao pôrto, ataca os vapores paraguaios Apa e Anhambai obrigando-os à fuga, debaixo de renhido fogo.

O ataque às trincheiras inimigas ao mesmo tempo, por diversos pontos, foi tão vigoroso que o grosso da fôrça do Tenente-Coronel Antônio Maria Coelho dominava a praça, depois de uma resistência de apenas uma hora. Foi uma investida de arrôjo e tão cheia de bravura que fêz lavar a alma nacional.

Estava libertada Corumbá, graças a uma ação ousada, pois não se esperou o resto da expedição que viria apoiar o ataque. O inimigo teve mais de cem mortos, inclusive Coronel Hermogenes Cabral, comandante da praça, contra 29 brasileiros postos fóra de combate Entre os bravos 200 brasileiros que entraram em Corumbá numa arrancada plena de heroísmo, estavam o Tenente 29 Cirurgião, Dr.. CARLOS JOSÉ DE SOUZA NOBRE e o Alferes Farmacêutico em comissão, DAMIÃO JOSÉ SOARES .

Libertada a povoação de Corumbá, os brasileiros observam que a varíola grassava ali e ficam cientes, pelo exame do arquivo apreendido, de refôrços que deveriam partir de Assunção e do insucesso da invasão da coluna do Cel . Camisão na fronteira do Apa. Diante disso, o presidente Couto de Magalhães, que havia chegado de Dourados no dia 23, com o resto dos batalhões, resolve retornar a Cuiabá, no dia seguinte, levando os troféus da vitória: duas bandeiras, seis canhões e muita munição e armamento . Em nossos soldados já se manifestava a incidência da varíola que ia disseminando gradativamente, motivando a imediata retirada de tôda a fôrça para Cuiabá.

"Um soldado alcunhado Chiba, apesar de ter o corpo todo coberto de pústulas de bexiga, sem camisa, pôs o cinturão e, durante todo combate, não cessou de fazer fogo"

A expedição segue, uma parte embarcada e outra pela margem do rio e pelos pantanais, numa longa e penosa jornada cheia de surprêsas, privações e acrescida do incremento da varíola, até alcançar o rio São Lourenço .

A 11 de julho, encontravam-se no pôrto da fazenda do Alegre o vapor Antônio João, na margem esquerda do rio São Lourenço, rebotando quatro embarcações e o Jauru, amarrado à margem oposta, isolado, por rebocar duas chatas com 80 variolosos. A soldadesca carneava-se despreocupadamente. À tarde dêsse dia, surgiram três vapores de guerra paraguaios, que haviam subido o rio em perseguição aos brasileiros, após a derrota sofrida em Corumbá.

Trava-se um combate renhido e apesar de surpreendidos, os nossos soldados e marinheiros põem em fuga as fôrças inimigas, e cujo episódio relevante foi a tomada e retomada do nosso vapor Jauru.

Narra um dos expedicionários, general Antônio Anibal da Mota, então alferes, que "um soldado alcunhado Chiba, apesar de ter o corpo todo coberto de pústulas de bexiga, sem camisa, pôs o cinturão e, durante todo combate, não cessou de fazer fogo, ora sôbre o Salto, ora sôbre o Jauru; terminado, foi-lhe um martírio para desapertar o cinturão, ficando a cintura em chaga viva".

Esta luta conhecida pela designação de "combate do Alegre", teve como artífice da vitória, o denodado Capitão-Tenente Balduíno de Aguiar — Comandante da Flotilha de Mato Grosso —, que diz na sua parte oficial sôbre o combate, datada de 18-7-1867."

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